segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Igreja Congregacional de Jaboatão - A Igreja evangélica mais antiga do município.

Por James Davidson


Resgatar e divulgar a história de templos católicos no Brasil tem sido uma tarefa que muitos historiadores vêm realizando com bastante frequência no país. Contudo, quando se trata de resgatar a história de outras religiões poucos são aqueles que se dispõem a fazê-lo e, principalmente, quando se trata da religião evangélica no Brasil, é um trabalho raro e quase que praticamente inexistente. Isso mesmo com os evangélicos representando cerca de 30% da população do Brasil! Tendo isto em vista, decidi contar um pouco sobre a primeira igreja evangélica de Jaboatão - A Igreja Congregacional de Jaboatão - em Jaboatão Centro. Minha principal fonte de pesquisa é um livro intitulado "100 anos de Proclamação" da autora Doroty Elizabeth que fala sobre a história dessa igreja. E que história!

Durante os primeiros anos de colonização, conforme podemos constatar no livro "Denunciações e confissões de Pernambuco", já existia no Engenho Suassuna, entre 1593 e 1595, pessoas acusadas de judaísmo, heresia e de não se submeterem aos dogmas da fé católica. Destaca-se o caso de um inglês que foi denunciado ao Santo Ofício por não prestar culto às imagens e que era protestante. Durante a invasão holandesa ao Nordeste Brasileiro, houve um aumento da presença tanto de judeus como de protestantes luteranos e calvinistas em Pernambuco. Muitos pastores exerciam ofícios religiosos em Recife, Paraiba e outros lugares e a liberdade de culto eram um dos principais motivos da revolta dos luso-brasileiros. "O ódio aos judeus e protestantes" é bem explícito em obras de autores da época como "O Castrioto Lusitano" e "História da Guerra de Pernambuco".

No final do século XIX, já existia em Jaboatão alguns protestantes brasileiros, mesmo com a proibição oficial. Isto se deu graças à presença de alguns missionários que divulgavam o evangelho aqui, em terras tupis. Entre estes missionários destaca-se Daniel Kidder que esteve em Jaboatão entre 1835 e 1840 distribuindo bíblias e Manoel José da Silva Vianna em 1868. O primeiro era um missionário metodista norte-americano enquanto o segundo era membro da Igreja Evangélica Fluminense. Manoel Vianna foi o responsável pela organização da Igreja Evangélica Pernambucana, em 1873, no Recife, a primeira igreja evangélica de todo o Nordeste com cultos em português. Até então, a prática do protestantismo só era permitida a alguns estrangeiros residentes no país e a evangelização era uma prática proibida. Com a proclamação da República, em 1889, e com a separação entre a Igreja Católica e o Estado, passou a existir liberdade de culto no Brasil e algumas congregações começaram a se formar oficialmente.

Interessante é o relato do missionário inglês Henry McCall que em agosto de 1893 falou dos crentes de Jaboatão:

"Tenho visitado algumas pequenas aldeias em volta da cidade de Pernambuco (Recife), distribuindo folhetos e vendendo evangelhos, como também lendo as palavras de vida a muitos ouvintes bem dispostos. Deus parece abrir portas aonde quer que eu vá. Minha primeira visita com este objetivo foi a JABOATÃO, onde temos alguns crentes, e penso que devemos formar uma pequena igreja ali. Temos tido cultos ali quinzenalmente mas eu acho que vamos tê-los uma vez por semana agora. Eu me senti bastante feliz com o primeiro evangelho vendido, e o povo parecia tão grato pelos folhetos."

Segundo Van-Hoeven Veloso, em Jaboatão dos Meus avós, a Igreja Evangélica Congregacional de Jaboatão já estava funcionando em 1891, em uma casa de madeira do Lote 1 da Colônia Suassuna, pertencente a Antônio da Costa Araújo. Em 1896, a igreja é transferida para o lote n° 6 da mesma Colônia e depois  transferida para o Centro da cidade, na Rua Dr José Marcelino (Barão de Lucena) onde funcionou até 1905. A igreja mudou de sede para a Rua Cons. José Felipe e depois para a Rua Barão de Lucena, onde em 1970 foi inaugurado o templo atual em estilo gótico, pelo pastor João Laurentino de Figueiredo.

A pequena igreja que surgiu no final do século XIX cresceu rapidamente, mas a perseguição dos católicos logo se fez sentir como é possível constatar em várias cartas e relatos:

"Apesar de toda a ira de nossos perseguidores, de seus artigos e sermões cheios de veneno e ódio, almas estão sendo abençoadas..."
"Eles nos chamam de cada nome feio enquanto passavamos pelas ruas, e ontem, quando o casal Kingston estava retornando de Jaboatão de trem, alguém jogou um tijolo, aparentemente querendo atingi-lo. O tijolo bateu na madeira atrás deles e quebrou, mas o casal não foi atingido...Pelo jeito trata-se de ataques organizados contra nossos irmãos."
"uma família que ouviu o Evangelho em Jaboatão...veio morar nos subúrbios do Recife, e tem sido obrigada a mudar para ainda mais perto da delegacia para ter um pouco mais de proteção. Eles têm sofrido tanta perseguição, mas, louvado seja o SENHOR, eles continuam firmes."

A perseguição era tanta que, em 1902, foi fundada a "Liga Contra o Protestantismo", controlada pelos jesuítas, e no dia 20 de fevereiro de 1903 o jornal "A Província" noticiava:

"Bíblias serão queimadas pelos monges em praça pública defronte do templo suntuoso da Igreja de Nossa Senhora da Penha, no domingo 22 de corrente...Todos da nova seita são convidados."

Hoje os evangélicos correspondem a cerca de 30% da população do município e, como os demais grupos, também possuem a sua história que merece ser contada e resgatada sem preconceitos.

3 comentários:

eliaspsneto disse...

muito bom, o resgate da perseguição que os protestante de um verdadeiro sofreram no inicio de sua jornada em Pernambuco.

Pr. JOÃO ALEXANDRE disse...

Só uma correção quanto ao nome da autora do livro, que vc usou como fonte de pesquisa. Seu nome é Dra. Joyce Clayton

Pr. JOÃO ALEXANDRE disse...

Apenas uma correção quanto ao nome da autora em que você se baseia na sua pesquisa. Seu nome é: Dra. Joyce Elizabeth W. Every-Clayton.